«hora de os morcegos ensaiarem os voozinhos de cetim», dito de Elias Santana, chefe Covas.
Na sede da Judiciária começou o baile das sombras esparvoadas. Os jornais vespertinos ou como tal apalavrados deram a notícia da prisão do Habeas Corpus e o inspector marinha pelas paredes porque lhe saltaram às canelas os doutores da Ordem dos Advogados. Esperneia e assopra a sete foles: Começou a bronca, grande merda, começou a bronca.
Inútil fazer-lhe ver que o vivaço do Habeas Corpus há muito que devia estar a contar com o abraço da Judite Benemérita. Que embora tivesse sido preso na rua e sem testemunhas tinha tudo preparado, secretárias, paquetes e solicitadores, tudo preparado para espalhar o escandoloso pelos jornais e por outros labirintos a saber. Que, ossos do ofício, nada de desesperar porque quem tem a chave das algemas está sempre a tempo de aliviar, a ver iríamos, como diz o Covas.
Mas, não. Otero, não dá ouvidos e o pior é que amanhã cai noutra. Otero, com a sua mania de alinhar pelos traçados dos outros, tem desgostos e persiste, convencido que se safa. Alinha no motejar do parceiro e quando deita a gargalhada caem-lhe os dentes para a mão. Alinha no palavreado oficial e na volta do parágrafo já é todo ressalvas e rasuras. Alinha no Director Judiciaribus, bem, então aí alinha sempre, amanda-se táo a direito que quando apanha nó cego é todo bigodes no ar e murros na mesa. Como foi o caso. A esta hora ainda está no gabinete a esbravejar
Elias deixou-o entregue ao mau perder e em nome duma constipação, que é a madre de todas doenças, comunicou que ia para a cama mudar de ares. De caminho ancorou numa pastelaria de bairro onde fez o balanço do dia
Resultado do balanço de Elias: uma manhã à trela do doutor dos brilhos.
Revê-se albardado naquele sobretudo, Rua Augusta abaixo, Rua do Ouro acima, e entra aqui, e espera acolá, agora Banco Burnay, agora manicura-barbearia, uma manhã à mercê. O motorista Ponto-Morto ao volante da carrinha. O Ponto-Morto a acompanhá-lo de cruzamento em cruzamento e Elias, de mão no bolso do sobretudo e vaporizador engatilhado, metido até aos dentes na sombra do Habeas Corpus No cheirinho da peúga, pode dizer-se. E o Habeas Corpus de proa alçada a desfilar solenemente. O Habeas Corpus, cumprimentos à esquerda, cumprimentos à direita, e um charuto romeu-e-julieta à porta do Rossio para anuviar.
Na Rua do Carmo parou na montra da Livraria Portugal (aí o chefe de brigada esteve vai que não vai para lhe deitar os veludos mas emendou a mão: Aguenta, Covas, que o homem é de arrasto e segue à maré) e como nisto de viagens à bolina quem no manda são as brisas deixou-se levar no corrente.
O doutor dos brilhos ia charuto ao alto, sulcando a manhã. Subiu o Chiado (subiram, mais propriamente) em navegação de cruzeiro. Na esteira fulgurante que o Habeas Corpus deixava para trás, Elias Santana teve ocasião de observar que, guardadas as devidas distâncias, o Chiado era uma calçada de cemitério rico em romagem permanente. Cantarias, portais lavrados, igrejas, vendedeiras de flores. A Marques tinha uma fachada de mausoléu parisiense dos tempos do cancã das tuberculosas; logo adiante havia uma ourivesaria pequenina com o recatado dum sacrário, veludos e pedrarias; livros na montra da Sá da Costa deitados como lápides mortuárias e medalhõe de falecidos académcos; ao cimo do calvário uma estátua a escorrer verdete onde um morto já esquecido está de dedo espertado para o passante como a dizer: Pecador que me ignoras em breve te juntarás a mim e então é ; que eu me hei de rir, Pax Tecum.
Chiado, o velho da estátua, é uma figura da infância de Elias. Chiado, solteirão e poeta no jocoso, boémio e imitador de vozes, pode exigir-se melhor dum lisboeta? Ainda para mais frade. Puseram-no naquele largo e puserem-no muito bem porque ali é que ele aguça o sorriso escarninho que nos lança a todos nós, mortais, sentado naquela banqueta entre igrejas e livrarias, entre o sagrado e o profano, e de frente para «A Brasileira», café des artistes
Pois foi justamente na «Brasileira» que o advogado entrou.
Aportou, fumegante, a uma mesa de caras conhecidas (que o chefe de brigada em diligência não soube identificar, parecendo-lhe tratar-se de individualidades ligadas à Oposição política e aos tribunais) a pouca distância dum grupo de artistas (pelo aspecto, bailarinos e provavelmente do São Carlos). Elias, sem o perder de vista, sentou-se perto da entrada.
Manhã de violetas nas cestinhas das floristas ambulantes e elegâncias a passo perfumado; marquesas de pendatif em peditórios de caridade; a estátua do poeta sátiro; o Habeas Corpus a fumegar. Como sempre que vinha à «Brasileira», o chefe de brigada reconheceu vários pides entre os frequentadores (e diz pides porque alguns deles contactaram a Judicária por razões de serviço) mas na generalidade permaneciam pouco tempo no café, eram de entrada por saída, podendo admitir-se que se dirigiam para a sede da Corporação, a qual como é sabido está localizada a dois quarteiróes dali. De salientar a presença habitual do agente Seixas (*)da referida Pide na mesa onde todas as manhãs o dr. Soares da Fonseca toma café com alguns deputados da nação.
Quanto tempo esteve Elias na «Brasileira»? Pelos seus cálculos meia manhã. Meia manhã e duas águas minerais, com o doutor dos brilhos a imperar a poucos metros de distância e com o corpanzil medonho do Seixas na parede de fundo. O que vale é que tinha também vista para o Chiado, «boulevard» e estátua de poeta com elegâncias a passar; e com carrinha do Ponto-Morto estacionada nas redondezas, bem a via.
Este velho da estátua era um dos seus fantasmas de menino, achava-o igual a um bruxo desdentado que havia em Elvas, um que chamavam o Esplérido e que tinha o corpo por dentro todo a bulir em lagartas. Não são lagartas, é sebo, sossegava-o o pai. Mas o Esplérido quando a garotada o espreitava à distância e de cara franzida, espremia as asas de nariz com duas unhas e começava a deitar pelos póros fios brancos como vermes retorcidos. E ria, o velhaco. Tinha o mesmo riso carcomido do velho de bronze.
Até tarde pela infância Elias julgou que o bruxo na sua estátua de Lisboa estava sentado num penico, o que o intrigava ainda mais. Hoje, diante deste chá de tília numa pastelaria de bairro, as recordações da manhá são bruscamente atravessadas por duas silhuetas muito longínquas, pai e filho pela mão. Dois visitantes na cidade diante da estátua do poeta verdete.
Elias tem esse instante muito bem recortado na memória: foi duma vez em que o pai trouxe a Lisboa, quando atravessaram o Tejo havia delfins a saltarem das águas em correnteza e os passageiros do barquinho apontavam e batiam palmas, parecia um circo ao natural. E no outro dia o pai juiz levou-o ao Tribunal da Boa Hora, que tem um nome bonito, Boa Hora, nós cá somos assim, a um lugar de sentenças chamamos-lhe de boa hora e um campo de cemitário dizemos que é dos prazeres. E depois na tal manhã, quando vinham do tribunal deram com aquilo. Ele, Elias pequeo, ficou a morder no dedo, desconfiado, mas o pai explicou-lhe que acolá era um poeta que tinha morrido há muitos anos mas que não fazia mal, havia mais, poetas era o que não faltava na nossa Históia, um dia aprenderia.
Elias naquela idade ainda não tinha começado as primeiras letras, estava longe de conceber o que pudesse ser isso dum poeta. O riso maldoso e as lágrimas negras que corriam pela cara da estátua metiam-lhe medo. E como a personagem de Elvas era igual à personagem em bronze que estava em Lisboa isso complicou-lhe os sonhos; principalmente porque este vestia uma toga de juiz ou a modos que. Muitas e muitas vezes dera por ele a sondar o pai, cheio de receio, convencido de que havia nele sinais escondidos do velho da estátua.
Mas na pastelaria do bairro:
Na pastelaria de bairro enquanto Elias fez o balanço da manhã da «Brasileira» do Chiado, café des artistes, havia um silêncio de sala de leitura. Os clientes estavam, e estão, de jornal aberto e a casa é alta de mais para o tamanho, loja de prédio antigo com florões e data de fundação. Elias vai urinar, conhece o caminho. Contorna o balcão, passa o guarda-vento vidrado e ao fundo do minúsculo corredor abre-se um arco de cantaria com seis ou sete degraus a pique; no cimo ergue-se uma sanita modesta de tampo de madeira. Como um trono de altar. Elias imagina a glória dum cidadão sentado ao alto das escadas, com as calças ao fundo dos pés, a desovar cá para baixo.
A pastelaria anoiteceu a olhos vistos. Os clientes estão de jornal levantado para receberem a pouca luz do tecto, por este andar vão ter que os levantar cada vez mais e subirem atrás deles, até ficarem de pé e a chorar dos olhos.
Entram dois loucos mansos do hospital Miguel Bombarda, ali ao pé. Reconhecem-se pelas cabeças rapadas, pela placidez escaveirada e pela roupa de internados; as calças estão-lhes sempre curtas, mal chegam às canelas, e usam cordéis a fazerem de cinto. Os loucos mansos dão uma volta pelas mesas acenando com dois dedos à frente da boca. Pedem cigarros, quer isso dizer.
Os clientes escondem-se ainda mais atrás do jornal e eles põm-se a apanhar beatas do chão. Depois vão beber água ao balcão: sem vontade nenhuma, de resto, sem levantarem a cabeça e fazendo pausas e respirando dentro dos copos. Como os cavalos, pensa Elias abrindo o Diário Popular.
Não chega a ler porque o dono da pastelaria aparece com um escadote e monta-o a meio da casa para colocar uma barra de néon no tecto. Comprida de mais, considera imediatamente Elias; demesurada para um esabelecimento daquele tamamnho. O dono da pastelaria sobe o último degrau, ergue bem alto o tubo de vidro nas duas mãos, faz rotações do tronco à esquerda e à direita. Parece um equilibrista a orientar-se. Os clientes levantaram os olhos do jornal. A assistir.
E numa arrancada brusca, hop!, a barra entra numa cavilha, entra na outra, faz contacto, a faísca singra velozmente dentro do vidro e, luz!, a luz explode fortíssima. Música. Alguém ligou a máquina de discos. Berra como uma desencabrestada.
A casa endoideceu com tanta luz e tanto som, com a agravante de o empregado de balcão se ter posto a triturar laranjas no batedor elétrico; ataca-as com o frenesi de quem está a britar pedra. Elias pensa: Pastelaria Metralha, bolos e refrigerantes. E sonha com cobertores de papa e uma malga de leitemel.
Aquellos ojos negros... que giram na máquina de discos são do Nat King Cole. Sempre que ouve a voz deste preto brilhantinas Elias magica no sucesso que ele não teria se lhe desse para cantar fado de Coimbra em tricano tropical. Anjos crioulos na Sé Velha, bananeiras no Choupal, havia de ser bonito. Mas o Neto Quingoles não está hoje nas noites do mais mavioso. Estremece o comércio e dá cabo das meninges do pacato, e sendo assim, andante, Elias põe-se a andar para a casa.
Quando entra no táxi o corpo pede-lhe cama sem demora. Desliza ao arrepio da febre pelo nocturno mais triste da cidade, Intendente, Socorro, Rua dos Fanqueiros. Saber que vai ficar em casa amanhã inquieta-o, agora com a prisão do advogado tem de acelerar os interrogatórios de Mena: «Prepare-se, o doutor foi preso.»
O chauffeur é destes de boné para os olhos, à malandreco. Elias topa o género. O taxímetro: tiquetaque tiquetaque. Ele, Elias (na próxima vez em que entrar na cela de Mena): «Prepare-se, o advogado foi preso.» Assim de caras, para começar. O Habeas Corpus, doutor dos brilhos, charuto na proa, o taxímetro: tiquetaque, merdamerda. Merda merda e mais merda (acompanha o inspector Otero, de bigodes assanhados). Tiquetaque tiquetaque.
Tiquetaque tiquetaque. A »Brasileira« café des artistes, Seixas, O Torturador, com aqueles óculos pretos e aquele nariz fendido à perdigueiro. Sentado entre os doutores da nação, calcule-se. Doutores de mãos limpas, belo friso. E tiquetaque, o taxímetro a traquejar. Chá Peitoral (Santo Onofre) alteia e flor de laranja. Ervanária do Intendente. O chauffeur tem a senhora da fátima mailos três pastorinhos colada no tablier. Durante a viagem, e depois quando Elias sai do táxi, não olha uma única vez para a cidade que percorre de fastio como se ela fosse uma galdéria mal amanhada.
Elias sobe os cento e trinta degraus fora os patamares e cai derreado a cama.
(*)Henrique Seixas, ex-guarda do campo de concentração do Tarrafal; José Soares da Fonseca, ministro, presidente da Administração da Companhia Colonial de Navegação e conselheiro de Salazar. - voltar ao texto