O romancista José Cardoso Pires nasceu em 1925, perto de Castelo Branco, na Beira,
uma região rural do norte de Portugal. No entanto, veio viver para a capital com poucos meses de idade e, nas
palavras de Inês Pedrosa "afirmar-se-ia sempre convictamente lisboeta"(1), atitude que se estende a boa parte da
sua obra ficional. Inicia a sua carreira de escritor como contista, publicando varias colectânias onde aparecem
histórias baseadas nas suas experiências da sua juventude em Lisboa, passada entre o vulto assombroso do
fascismo de cariz mais Nazi e a liberdade da rua. A sua escrita afasta-se da da geração precedente,
os neo-realistas, rejeitando uma certa demogogia, um maniqueismo monolitico e a sua romantização da
classe operária sem abrindo mão duma abordagem crítica de questões sociais e poliíticas
partindo duma posição de esquerda.
Em 1958 lança o seu primeiro romance O Anjo Ancorado, cuja narrativa tem uma forte carga alégorica.
O emprego desta técnica manterá-se ao longo da sua obra novelística e, nas palavras de José
Fonseca e Costa, que posteriormente levará Balada da Praia dos Cães às telas de cinema,
"abre um novo caminho para a literatura portuguêsa"(2). À seguir, em 1960, publica a peça O Render
dos Heróis e o ensaio a Cartilha do Marialva, uma . Com o seu livro seguinte, O Hópede de Job de
1963 Cardoso Pires continua e apura o seu uso de, nas suas próprias palavras, 'linguagem citadina', apesar do
cenário alentejano do enredo. Em 1968, lança O Delfim, onde «confronta as ténicas do
romance policial e do moderno romance psicológico»(3) e afasta-se ainda mais do modelo neo-realista. Na
qualificação de Eduardo Prado Coelho (que também aplica esta observação, como veremos,
à Balada da Praia dos Cães, O Delfim «é feita apenas das suas 'versões'
que alguma coisa aclaram ao empilharem-se ao longo do texto (e por isso há um movimento de avanço para a
verdade) mas que nunca eliminaram nem a sombras dessa claridade, nem as contradições dos focos da luz»(4)
. Torna-se ainda mais evidente a preocupação em radiografar a sociedade portuguesa da altura. A partir daqui,
citando uma observação de Liberto Cruz, José Cardoso Pires é »cada vez menos interessado
em contar histórias, faz da ambiência uma figura cimeira do próprio romance«(5). Em 1972, publica
O Dinossauro Excelentíssimo, um «grotesco retrato de Salazar», que devido a um equivoco no
parlamento escapa-se inesperadamente a qualquer censura.
Em 1975 dá-se a Revolução dos Cravos. A seguinte étapa da sua carreira de escritor dedica-se
a reflectir sobre o passado recente de Portugal duma posição de liberdade. Em 1977, publica E agora, José?,
uma coletânea de textos exégeticos (principalmente dobre O Delfim), notas de leitura, considerações
tecidas sobre o medo instaurado em Portugal pela ditadura como instrumento de controle e as técnicas e
internaliação da censura (temas sobre os quais o autor dramatiza em Balada da Praia dos Cães.
Em 1979 publica a peça Corpo-Delito na Sala da Espera, na qual encena a política polícia
salazarista, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Segundo Eduardo Lourenço o seu
prefácio, à primeira edição, a PIDE representa »o exemplo ímpar da
não-tragédia da vida portuguesa durante cinquenta anos, banalidade cinzenta ou eufórica
à superfície da qual o mundo da denúncia, da suspeita, da repressão, da tortura foi uma ruga
sem relevo particular para a consciência comum.«
Em 1982 publica A Balada da Praia dos Cães, o seu maior sucesso internacional e o livro que trato aqui.
Segundo Eunice Cabral, Balada da Praia dos Cães abre um novo ciclo na produção romanesco
do autor:
«este ciclo é aberto pelo findar de uma situação política caracterizada pela Censura
e pelo autorismo social, situaço de mudança que permite uma representação narrativa fechada do
mundo social português da década de 60, em que a focalização recria a preensão do mundo
da própria época»(6)
Posteriormente publica em 1987 Alexandre Alpha, romance que retrata a situação social no periodo
imediatamente pré- e pós-revolucionário. Em 1988 publica A Repúlica dos Corvos, uma
coletânea de contos protagonizado por personagens animais, assim ampliando a sua tendência para imagens animalescos
alegóricas, já evidenciado em, por exemplo, o lagarto de estimação da personagem Covas de
Balada da Praia dos Cães. Em 1994 publica A Cavalo no Diabo, uma antologia de crónicas escritos
para o jornal o Público, e onde volta ao mundo marginal da Lisboa que retratou nos seus contos no início da
sua carreira. Em 1995, sofre um acidente vascular cerebral que o deixa num estado de 'morte branca' de que, contudo, ele
consegue recuperar, experiência, relatatando a experiência no livro De Profundis, Valsa Lenta. Neste ano, lança
também o livro Lisboa, Livro de Bordo>, onde o autor examina a sua relaç com a cidade que habitou os
livros e em que ele morou a maior parte da vida. José Cardoso Pires morreu em 1988.