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Balada da Praia dos Cães e o conceito da
Metaficção Historiográfica
Para Linda Hutcheon, a teorista canadiana que o cunhou, o termo 'metaficção
historiográfico'(1) refere a um corpus de obras pós-modernas que são simultâneamente
representacionais e reflexivos, que se esforçam a retratar a história e a
pôr em questão a nossa abilidade de o fazer. A desconfiaça em relação à nossa
capacidade de escrever História (e não só construir histórias) advém de três
fontes:
- Uma visão do passado experiencial como perdido, inaccessível a não ser em forma
de 'texto' (compreendido em sentido lato, desde memórias à fotografias), que, por sua natureza, entretém relações problemáticas com
a 'realidade'.
- Uma visão do passado experiencial como um emaranhado de acontecimentos brutos, sem a clareza do
modelo de causa-efeito que lhes estão impostas posteriormente pelos historiadores.
- Uma visão da História como a transformação destes traços textuais dum passado confuso
numa narrativa teleológica, homogéna, descartando aspectos que possam interferir com a versão do
passado que se visa exprimir e ignorando a minúcia do dia-a-dia do povo em favor a grandes personagens e
acontecimentos dramáticas. Outramente dito, a História é 'performativo', ela constói o seu objecto,
em vez de simplesmente transcrevendo a 'verdade'. E, por sinal, a maneira como a História se constói é
muito próximo à maneira como uma história, um romance, se escreve.
Para Linda Hutcheon, a metafição historiográfica mantem o engajamento com a História política
, social e ético, partindo e discutindo sempre fontes históricas. Contudo, as aporiae da historiografia sendo inevitáveis, a metafição historiográfica
procura, por via de recursos reflexivos alertar o leitor ao processo de constução e seleção, às étapas
do escrever da 'história da História', assim tratando da realidade social e admitindo que esta realidade é inaccessível como tal,
que qualquer discussão dela é necessáriamente exclusiva e parcial. O recurso a metaficcionalidade tem a função de manter estas
considerações na mente do leitor, convidando-o a comparticipar na construção do texto e evitando qualquer ilusão autoritário
da realismo.
Em Balada da Praia dos Cães o vertente históriografico manifesta-se na abordagem de factos e situaçoes passadas numa determinada
conjunctura da história portuguesa,a base na obra nos arquivos políticos, reportagens jornalísticos da altura e um relato que um dos assassinos
fez chegar às mãos do autor. A vertente metaficcional manifesta-se através duma aberta ficcionalização da História que se manifesta, por exemplo, através
das intromissões da voz autorial, directa e paratextualmente. Estes impulsos paradoxicalmente conflituosos e complimentares v&ecic;m-se no retrato que a obra faz da cidade. Partindo de lugares e
dinâmicas sociais que caracterizavam a sociedade Lisboeta da altura, no decorrer do inquérito e na vida cotidiana do investigador, o livro apresenta encontros e trajectórios ficcionais
que visam dar a observar, e daí compreender, por histórias, a História.
(1)Linda Hutcheon, The Poetics of Postmodernism, London: Routledge
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