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Infrações às leis do Romance Policial


Em termos da sua estrutura narrativa - crime, investigação e revelação do malfeitor - Balada da Praia dos Cães pode ser qualificado como um romance policial. Contudo, se vermos bem, o enredo da obra contem muitos entorses às 'regras' do género, que embrora tenha sofrido muitas transgressões ao longo da sua história, ainda acarreta para o leitor um 'horizonte de expectativas' muito forte. John G. Cawelti tem argumentado em favor dum 'padrão'(1) geral dentro do género, a partir do qual o leitor consciente ou inconscientemente mede as divergências encontradas (e sem o qual não se podia qualificá-lo de 'gênero'). Em sumo, quando depara com um romance policial, o leitor imagina logo certas 'direções' narrativas. Ao ver de perto, estas expectativas são todas frustradas na Balada da Praia dos Cães. Nisso nos podemos qualificar o romance de "anti-policial", na terminologia de Stefano Tani(2), uma obra que subverte de prósito as expectativas que o leitor traz ao romance detectivesco. Para enumerar: primeiro, não há propriamente uma cena de revelação, de clímax. Para dar um exemplo maior: nos sabemos quem matou o major practicamente desde o início das investigações, assim como sabe o investigador. Mena é apreendida logo e a identidade dos outros é óbvio, a sua captura uma questão de tempo só num país tão policiado quanto Portugal. Esta ausência de nem mistério, nem suspense viola flagrantamente as chamadas 'leis' do género. No entanto, durante as suas investigações Santana declara «no tresler é que está a leitura». E é isso, na ausência das trâmites normais do romance policial, que o livro encoraja, implicitamente, o leitor a fazer em relação à vida e investigação de Elias Santana. Esta táctica coloca o romance dentro da subcategoria que Tani chama de 'anti-policial inovativo'(3), romances que não escondem a solução ao crime até o fim, de maneira a dirigir a atenção do leitor para o ambiente do livro e as suas implicações sociais e existenciais e que acabam em situaçõs de manifesta injustiça como maneira de criticar o status quo retratado. O leitor apreende este ambiente no decorrer das investiga¸˜o de Elias, utilisando um protector do regime para dar corpo os efeitos que este estrutura politíca produz nos seus cidadões. Balada da Praia dos Cães evidˆncia a este efeito, traços de que Cawelti (3) define como o variante procedural do romance polcial. Neste tipo do género o foco remete para o processo de elucidação empreitada pelo investigador. Isto põo o ônus da narrativa nas vidas (cotidianas, por natureza) das personagens e no que Simas (4) denomina a "paisagem" do romance.


(1) John G. Cawelti (1976) "Adventure, Mystery amd Romance: Formula Stories as Art"
(2) Stefano Tani (1984) The Doomed Detective: The Conribution of the Detective Novel to the Postmodern American and Italian Narrative Carbondale and Edwardsville: Southern llinois University Press
(3) Op. cit.
(4) Mónica Simas, “A Ética das Imagens da Cidade em Cardoso Pires”
http://www.letras.puc-rio.br/catedra/revista/1sem_10.html 18/08/2003

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