Escrito durante o periodo pós-revolucionário e publicado em 1982, Balada da Praia dos Cães
relata a investigação de um assassinío. O cenário é o Portugal do início dos anos 60, chamado por
Gérard e Pierrette Chalender de "época salazarista por exceléncia"(1). Este foi um periódo crucial
para o régime fascista, dado que o país tinha acabado de perder os seus territórios na Índia e vista as sementes da revolta armada
nas colónias Africanas tinham comecçarem a brotar. Embora este contexto político permaneça principalmente implícito, é crucial como pano de fundo
contra o qual o enredo se desenrola. A Balada da Praia dos Cães pode ser qualificado como um romance policial, ainda que
infrinja as supostas 'regras' do género.
Segundo a análise estruturalista do romance policial feito por Todorov(2), pode-se dividir o enredo da
Balada da Praia dos Cães em dois enredos, um que descreve o inquérito e outro, construído através
desta investigação que conta o ocorrido do crime. O protagonista do primeiro história é Elias Santana, um
chefe de brigada da Polícia Judiciária encarregado de encontrar os responáveis pelo o assasinío de Major Dantas Castro. O Major, encárcerado
por 'tentativa de sedição militar', ou seja, o seu envolvimento num golpe anti-salazarista abortado, tinha-se evadido da forte militar
de Elvas onde se encontrava detido com a ajuda de três cúmplices. Uma vez fora da prisão fugiram para uma casa escondida cerca
de vinte kilómetros de Lisboa alcunhada de 'Casa da Vereda'. Três meses depois da fuga o Major foi assasinado pelos seus
cúmplices: Mena, uma jovem mulher com quem o Major tinha uma violenta e obsessiva relação antes do seu encárceramento,
o arquitecto Fontenova, outro prisioneiro detido em Elvas por seu envolvimento com a revolta militar e membro do mesmo movimento de resistência
anti-salazarista do Major, embora com atitudes politícas e morais muito diferentes das de Dantas Castro e o cabo Barroca, uma guarda do campo
a cumprir o seu serviço militar. Até um certo ponto, podemos ver na casa da vereda um microcosmo de Portugal naquela altura. O Major, um verdadeiro
Marialva, que vê Mena como um bem e uma prova do seu machismo, o intelectual sensível Fontenova com desprezo e um brutal paternalismo, e o camponês Barroca como o seu servo.
Os habitantes estão ali escondidos à espera dum signo do 'Comodoro', nome de código do advogado Gama e Sá, o seu contacto na resistência que, ao que parece, quer distanciar-se do Major. Nós assistimos aos acontecimentos na casa através das descrições feitas pela Mena no seu depoimento a Elias Santana. Na sua detenção extrajudicial e nos metódos
empregues por Covas para interrogá-la vimos um bocado os procedimentos da polícia da altura. A divisão entre 'bons' e 'maus', parte sturtural
integrante do romance detectivesco tradional, dificulta-se e começam a desmoronar-se as régras do género. Pelo testemunho da Mena, com a lucidez que se pode ter quando se olha para trás, mas mantendo
o sentimento de obscura confusão que caracteriza a experiência humana (por oposição à 'clareza' da História.), nos vemos as pressões sociais e históricas
que tornaram un homem de prícipios ferrenhos num monstro irracional e levaram três pessoas de sensibilidade e inteligência a matarem brutalmente este homem que outrora amavam e respeitavam.
O inquérito de Elias Santana visa elucidar esta segunda história, como compete a um agente da polícia judiciária. Contudo, a sua investigação
revela muito além dos simples acontecimentos do caso, que desde cedo estão averiguados. Em acompanhando a sua actuação, nós vemos um país onde a verdade,
outramente dita a história, é somente a versão do sucedido que mais arranja o poder, imposto à população pela PIDE e pela agência da Censura. Nós vemos,
obscuramente, do ponto de vista de Santana as manipulações da PIDE, a desconfiança e da Polícia judiciária para com ela e o distorcimentos dos factos
divulgados por uma imprensa maioritáriamente servil, obediente ao régime e, em todo caso, censurado. Ao acompanhar Elias nas suas investigações também
entrevemos a sua vida, esvaziada e cinzenta, com somente um lagarto altamente alegárico por
companhia. Vemos nisso o cotidiano do fascismo, atraveés de um dos seus protectores. Sem grande drama, a tragédia do não;-tragédia como Eduardo Lourenço chamou à
realidade fascista. Através das suas deambulações pela Lisboa acanhada e apoquentada dos anos do fascismo, e as suas entrevista com suspeitas e
testemunhas acerca do caso, proporcionado uma visão polifónico da sociedade contemporânea.
O que vem complicar este romance é o facto de ser baseado num caso verídico De facto, em 1960 um militar foi assassinado pelos seus cúmplices, um dos quais, que viria a inspirar
a personagem do arquitecto Fontenova, depois da sua captura, fez chegar às mãos de Cardoso Pires um relato dos acontecimentos. Tendo isto em mente, será Balada da Praia dos
Cães, romance ou História, ou até romance histórico? Vem um outro factor a complicar o cenário, o facto de o livro ser extremamente metaficcional, fracturando sempre qualquer
ilusão de 'representação de realidade' cara ao neo-realismo. O livro alerta o leitor continualmente ao facto que uma fição, possível e plausível muitas vezes
está a ser escrita. Isto permite-nos chamar o livro de, segundo a designação de Linda Hutcheon "metafição histórica".
(1)Gérard e Pierrette Chalender, »Da Balada da Praia dos Cães« in Letras e Letras up(2)Tzvetan Todorov, Typology of Detective Fiction up